Sexualidade, Necessidade de Liberação, Necessidade de Regulamentação

Na saga humana sempre teve, em seu seio o conflito entre busca pelo bem-estar individual, pelo prazer, pelo gozo e os conflitos que podem ocorrer, tanto entre indivíduos como também na comunidade, na sociedade na qual se está inserido.

O dilema não se reprima versus limitações humanas ligadas as paixões, ambições egoísmos, ciúmes, invejas, cobiças, dentre outras ações e reações e podem levar a conflitos entre pessoas e/ou, de forma mais ampla, conflitos sociais. Como equacionar, equilibrar tudo isto, no contexto social?

            A função da sexualidade não é só para a perpetuação da espécie, para a reprodução, mas também, para proporcionar prazer. Não se come, só para viver/sobreviver, mas também por prazer - falando de alimento como analogia - Mesmo depois ou independente de saciada a fome, pode-se, ainda degustar pelo prazer em si que alguns alimentos proporcionam ao paladar. Existem sabores que são verdadeiros “orgasmos” de tão deliciosos que são.

            Por sermos criativos, reflexivos, exploradores, dentre outros aspectos e características próprias da natureza humana, é natural explorações, especulações, observações, experimentações quanto ao prazer da prática sexual; melhor, se em outras áreas do prazer a espécime humana investe muito e de forma intensa. Como exemplo a comida (já mencionada), as drogas no geral, sejam ilícitas sejam lícitas, com uma gama de experimentos, variações de produtos;  no caso das drogas ilegais, não importando o preço, os riscos; apesar da violência.

Analisando o ato sexual e suas implicações, não só pela sensação erótica direta, mas também pelos valores conscientes e inconscientes ligados à perpetuação da descendência do indivíduo em idade reprodutiva, a sua continuidade; pelo sentimento de posse, de possessão, de conquista; pelos sentimentos ligados as relações seja amor-eros, seja paixão- eros, carinho; prazer de ser querido, acolhido; sentimentos correlatos, mas paralelos ao ato sexual em si.

Algo que vai além de pênis e vagina. Mesmo na experiência pênis e vagina, pode-se ter uma gama de possibilidades quanto a posições, intensidades, velocidade quanto à penetração; a capacidade criativa pode trazer enumeras variações, mesmo se a pessoa fixasse exclusivamente no coito heterossexual tido como “normal”; sem contar com os toques, olhares, palavras, sentimentos aflorados, não aflorados, jogos, blefes, declarações; ações e reações podendo ser agressiva, conflitante, tolhida, reprimida.

            O que quero colocar: o ponto de tensão, em princípio não é, ou não são os limites estabelecidos em si mesmo, quanto a regras e limites para a prática sexual, mas a natureza humana e suas tendências. Explico melhor, nesta capacidade criativa, exploradora; a busca do novo, do diferente, do mais, que é normal no ser humano, estimula à descoberta de outras formas, na busca do prazer, atreladas a sexualidade, a libido. O ser humano descobre ser o corpo, como um todo erógeno.

            Neste contexto de exploração, sem repressão, nem opressão, ou mesmo com. A espécime humana praticou e pratica toda gama de ação sexual, em toda dimensão que se possa ou não se possa imaginar.

            Daí veio à necessidade de catalogar e/ou organizar, para melhor entendimento estas práticas. Nós humanos queremos entender melhor as nossas ações e reações, como também as implicações e consequências das mesmas.

Alguns exemplos de práticas a titulo de ilustração. Começo com sexo anal. Homem tem anus, mulher também tem. Pode-se ter orgasmo, com outra pessoa, com penetração, sem necessariamente, ser mulher; pode-se ter penetração homem com uma mulher sem ser vaginal, diferente do normal-biológico-reprodutivo; pode-se ter prazer com penetração com pessoa do mesmo sexo, é possível ter afeto, atração sexual por pessoas do mesmo sexo.

Sexo oral, a boca com outras funções que não falar e comer. Proporciona afeto no beijo, prazer no beijo de boca, no mordiscar, na mordida, leve, forte; boca língua no pênis(felação); boca, língua na vagina (cunilíngua), no anus (anilingus).

            Sexo grupal, no qual várias pessoas fazem sexo ao mesmo tempo em um mesmo lugar, sem necessariamente terem parceiros fixos. Exibicionismo, pessoas que sentem prazer em mostrar seus órgãos genitais a outros sem a autorização do mesmo, voyeurismo que consiste no prazer de ver outras pessoas nuas, ou em relação sexual, ou trocando de roupa, no banho sem elas saberem; sexo com animais (zoofilia), sadismo, masoquismo, prazer no infligir dor e em sentir dor respectivamente.

            Além destas variações mencionadas, existe todo um complexo de possibilidades na prática sexual já praticado e ainda por praticar, o poder criativo humano é inesgotável, assim como a criatividade nas composições de melodias e versos-poemas jamais se extinguiram, principalmente quando o tema é o amor.

            Nisto tudo, contudo, inevitavelmente surgiu, por ser, também inerente a humanidade, a necessidade de entender esta complexidade, a necessidade de organizar, avaliando os prós e os contras, o que pode ser permitido, o que não. As implicações e consequências das e nas atividades sexuais no contexto de comunidade, de sociedade.

            Começaram a aparecer os conflitos por causa, por exemplo, do ciúme, do sentimento de posse, do desejo por um descendente (perpetuação do seu DNA); o acúmulo de bens materiais e o herdeiro-herança; conceito, antes formação de família e suas implicações. Estruturação de religiões com éticas normativas, dentre outras possibilidades.

A pergunta é: as leis, as regras, não surgiram por causa destas ações e reações inerentes à natureza humana, como um freio necessário, no objetivo de se conseguir conviver minimamente em sociedade? Se a resposta é sim, explica-se o surgimento das leis civis e religiosas.

Neste contexto reflexivo podemos questionar os abusos legalistas, as repressões exageradas, as manipulações perversas, castradoras e ao longo dos séculos as reações reivindicando liberdade de expressão, quanto ao prazer na sexualidade.

Vale destacar os movimentos, por sua notoriedade, nos anos 60 e 70 do século XX do hippies com seu lema ‘faça amor não faça guerra’, defensores do sexo livre e de uma sociedade alternativa, pacifista; das feministas combinando com o advento da pílula anticoncepcional, que as deixaram mais seguras quanto a prática do sexo. Nos anos 70 nunca se falou em sexo como a partir dali, nas escolas, nas ruas, no seio familiar, até, embora menos, nas igrejas também.

Várias formas de contraceptivos mais seguras; na década de 80 e 90 a pandemia chamada AIDS, um balde de água fria na liberdade sexual? Era chamada de ‘a praga gay’, ainda na década de 90 surgiu a famosa pílula azul, uma revolução contra a impotência masculina, no início do século XXI debates mais acirrados em defesa dos homoafetivos, a luta para conscientizar, mais que uma opção sexual a homoafetividade seria algo natural. A defesa era e é: ‘toda maneira de amor vale a pena’

Vivemos um novo tempo, no qual o limite é o consentimento, este é o limite. O que não se pode é estuprar, não pode a pedofilia.

A pergunta volta: será que não há uma necessidade de se rever as regras, nesta época, não haverá uma desagregação social comprometedora se, ou quando todas as regras ou padrões, quanto ao(s) modelo(s) familiar (es) ou formas de prazer não tiverem mais limites, ou os poucos limites já não estão sendo nocivos e ainda não percebemos?

Só sei de uma coisa: oprimir e abusar das pessoas a partir das regras estabelecidas no que se refere à moralidade familiar e sexual não é o ideal, mas o desregramento pode levar ao caos. Qual o ponto de equilíbrio?


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